quarta-feira, 24 junho , 2026

Coronavírus: os 4 tratamentos que a OMS está estudando para combater a covid-19

Um plano agressivo para salvar vidas.” É assim que a Organização Mundial da Saúde (OMS) define seu novo esforço para combater a pandemia de covid-19, doença causada pelo novo coronavírus. Na segunda-feira (23/03), o novo coronavírus já havia infectado mais de 350 mil pessoas e matado mais de 16 mil em 170 países. E os números crescem a cada dia.

Sem tratamento ou vacina com comprovada eficácia contra a doença, os médicos se concentram em aliviar os sintomas. Por esse motivo, a OMS lançou uma iniciativa chamada Solidarity (Solidariedade) e que consiste em um estudo clínico por meio do qual 10 países vão pesquisar simultaneamente a eficácia de quatro medicamentos para o tratamento de pacientes com covid-19.

O objetivo é coletar o máximo de dados no menor tempo possível; portanto, em vez de trabalhar no desenvolvimento de novos medicamentos, um processo que pode levar anos, os envolvidos nesta pesquisa vão verificar se algum usado para combater outras doenças pode ajudar a neutralizar o coronavírus.

E embora alguns desses medicamentos estejam disponíveis no mercado, os médicos reforçam que nenhum deles deve ser administrado sem indicação ou supervisão médica. Argentina, Bahrein, Canadá, França, Irã, Noruega, África do Sul, Espanha, Suíça e Tailândia aderiram ao estudo, pelo qual esperam contar com a participação de milhares de pacientes.

“A virtude desse tipo de estudo é que podemos recrutar pacientes rapidamente”, diz à BBC News o epidemiologista George Rutherford, professor de bioestatística da Universidade da Califórnia (EUA).

“Se, por exemplo, eu estivesse fazendo esses testes sozinho em meu laboratório, teria dois ou três pacientes por dia, mas com a participação de vários centros, você pode ter 100 pacientes por dia”, acrescenta. “Essa é uma boa maneira de ganhar eficiência “.

Ana María Henao-Restrepo, pesquisadora do Departamento de Vacinas e Produtos de Imunização Biológica da OMS, disse que este projeto está sendo realizado “em tempo recorde”. Segundo Henao-Restrepo, a OMS espera ter centros de documentação e gerenciamento de dados para esta pesquisa a partir da última semana de março.

Rutherford diz que, considerando uma “estimativa hiperotimista” e se não houver problemas logísticos, esse estudo poderá gerar resultados em um mês. Paralelamente a este estudo internacional, a OMS afirmou que cientistas de várias partes do mundo estão trabalhando no desenvolvimento de pelo menos 20 possíveis vacinas contra covid-19.

Aposta ambiciosa

Para levar adiante esse estudo ambicioso, um painel de especialistas da OMS selecionou quatro tratamentos que consideravam os mais promissores para enfrentar a doença. Eles consideraram critérios como a qualidade das informações sobre eles e sua disponibilidade.

Essas terapias consistem em medicamentos ou combinações de medicamentos que foram usadas no tratamento do Ebola, malária ou HIV.

Os tratamentos serão aplicados aleatoriamente, dependendo da disponibilidade em cada hospital, para pacientes com casos confirmados de covid-19. Após o início do tratamento, os médicos registram o progresso do paciente, incluindo a data em que ele deixa o hospital ou se ele não consegue se recuperar.

Rutherford indica que, idealmente, o objetivo é administrar a terapia nas fases iniciais da doença, antes que o paciente seja levado à UTI (Unidade de Terapia Intensiva). A epidemiologista elogia o projeto Solidariedade, mas alerta que trabalhar com vários centros em vários países ao mesmo tempo pode torná-lo logisticamente complicado.

“Apesar do fato de os protocolos serem escritos com precisão, sempre haverá diferentes interpretações, que podem não levar a comparações reais”, diz.

Conheça abaixo as quatro terapias sobre os quais os especialistas de todo o mundo se debruçam.

1. Remdesivir

A droga foi concebida para tratar o ebola, mas não se mostrou eficaz contra esta doença. No entanto, parece ter potencial contra os coronavírus com base em testes de células cultivadas em laboratórios. Também há relatos de que foi benéfico para pacientes com covid-19, mas isso não é suficiente para afirmar que o medicamento é eficaz.

Entre os medicamentos incluídos no projeto Solidariedade, o remdesivir “parece ter a atividade anticoronavírus mais potente em testes de laboratório”, disse Stephen Morse, diretor do programa de Epidemiologia de Doenças Infecciosas da Universidade de Columbia (EUA) à BBC Mundo, o serviço de notícias em espanhol da BBC.

2. Cloroquina / hidroxicloroquina

A cloroquina foi utilizada por muitos anos no tratamento da malária, até que o parasita que produz essa doença gerou resistência ao medicamento. “Se funciona para a malária, não significa necessariamente que funcionará para covid-19”, diz Rutherford.

Este medicamento tem a vantagem de ser administrado por via oral e é barato, mas também produz efeitos colaterais como dor de cabeça, tonturas, perda de apetite, dor de estômago, diarreia, vômitos e erupções cutâneas, dizem autoridades americanas. Por outro lado, por ser relativamente fácil de obter, sua citação no noticiário como possível cura para covid-19 levou a casos de envenenamento pelo mundo.

No Brasil, muitos correram às farmácias e compraram o medicamento, que não exigia receita para ser vendido. Pacientes que necessitam da droga para controlar doenças autoimunes, como lúpus e artrite reumatoide, fizeram apelos nas redes sociais. No último sábado, a Anvisa (Agência de Vigilância Sanitária) restringiu a compra do medicamento.

3. Ritonavir e lopinavir

A combinação desses dois medicamentos tem sido usada para o tratamento do HIV. Especialistas consultados pela BBC Mundo concordam que esta mistura não mostrou resultados encorajadores contra o coronavírus. “Mas você nunca sabe, é razoável tentar novamente” , diz Rutherford.

4. Ritonavir / lopinavir e interferon-beta

A quarta opção de terapia a ser testada pelo estudo Solidarity é a mistura de ritonavir e lopinavir junto com interferon-beta, uma molécula que ajuda a controlar a inflamação e demonstrou ser eficaz em animais infectados pela síndrome respiratória do Oriente Médio (Mers, na sigla em inglês). Os especialistas alertam que é essencial ter cuidado quando administrados, pois, se aplicados em estágios muito avançados, podem ser ineficazes ou até causar mais mal do que benefícios ao paciente.

Agora é só uma questão de tempo para conhecer os resultados do projeto Solidarity, mas de acordo com Morse: “Este é um grande passo à frente.”

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